Um pombal na Escola E.B. 2,3 de Marinhais
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Pela primeira vez há um pombal na escola. Nos primeiros dias passou algo despercebido mas em breve seria visitado pela grande maioria da população escolar entre os 10 e os 13 anos. Curiosamente o pombal não despertou a atenção do 9 ºano de escolaridade, sendo claro que o interesse diminui rapidamente a partir do 7º ano. Este movimento resultou em 38 inscrições no Clube de Columbofilia. As inscrições femininas foram desde início lentamente minadas pelos rapazes. No entender deles a columbofilia não é assunto de raparigas :(. Foi bastante motivador verificar que o pombal se encontrava quase sempre com lotação esgotada em cada intervalo. Os estrados vergavam com o peso.

Realizaram-se algumas sessões "cinematográficas" sobre a columbofilia fazendo-se uso de vários vídeos sobre a criação, genética, capacidade de orientação, "desporto" columbófilo, criação de várias raças de pombos etc. de forma a dar uma ideia real da importância que o pombo sempre teve para a humanidade e para muitos homens no particular.

Desde o início os miúdos nunca foram canalizados apenas para a componente desportiva. Quando o interesse por esta vertente se tornou claro foram-lhes mostrados vários vídeos sobre o tema tendo o cuidado de alertar para o facto de eles nos próximos anos não estarem capacitados para entrar no mundo desportivo quer devido a falta de experiência quer devido ao facto de ainda estarem no decorrer do seu percurso escolar. A columbofilia também necessita de escola.

O problema seguinte seria coordenar os cuidados dos pombos entre tantos interessados. Tínhamos 10 borrachos para tanta gente. A distribuição dos pombos por turma foi decidida entre eles. Cada grupo apenas poderia alimentar os que estavam ao seu cuidado, bem como tratar da sua adução e voo. Na teoria tudo muito bonito, mas na práctica funcionava muito mal pois quase todos os dias chegava um miúdo ao pombal que resolvia tratar de alguns que não estavam ao seu cuidado. Uma confusão que criava alguns conflitos entre eles.

Poderia funcionar melhor?. Bem, podia se estivesse sempre alguém no pombal. As minhas visitas durante o dia eram de acordo com o meu tempo livre (nem todos os dias posso lá estar), e por isso o pombal estava sempre aberto. De início ainda se tentou dar chaves, condicionar as visitas mas rapidamente se abandonou a ideia pois as chaves estavam-se sempre a perder, queixas de que A ou B fechava o pombal e novos interessados encontravam por vezes o pombal fechado. No final de cada dia ia verificar se estava tudo bem e corrigir alguns erros.

Os borrachos sofreram bastante nas mãos dos miúdos. A maioria queria que eles reagissem como os cães ou os gatos. Andavam com eles a passear por toda a escola, faziam concursos de borrachos quando eles ainda mal voavam etc. Tanta coisa que me fez recordar os meus primeiros tempos. Foi um espectáculo verificar como o pombo continua a despertar tanto interesse. Recordações que certamente ficarão na memória de muitos deles.

Quando já estavam aduzidos foram organizados alguns treinos cuja chegada se fazia coincidir com o maior intervalo da manhã. Em breve já eles tinham organizado apostas e quando fui arrastado para o jogo perdi logo algumas gomas :).

A ideia nunca foi ter um pombal escolar em competição num clube. Quanto a mim é uma forma errada de introduzir a columbofilia pois pressupõe que se ensina às novas gerações o erro essencial do passado: são necessários demasiados pombos para realizar uma temporada. Encestar todas as semanas durante vários meses, preocupados se os pombos voaram etc. não permite que a maioria dos miúdos se concentrem o suficiente na escola, logo é uma responsabilidade que nenhum projecto deste tipo deveria querer e que deve procurar atenuar. Apesar destes cuidados alguns miúdos ficam viciados e devido aos maus resultados escolares os pais resolvem castigá-los afastando-os do pombal.

Também tento mantê-los longe dos columbófilos e alerto para quase todos os tipos de ensinamentos disparatados que destes podem vir. No entanto por educação devem escutar tudo e usar o que aprendem na escola para separar o trigo da palha.

No final do 1º ano ofereceram-se 60 anilhas e 24 pombos adultos. No 3º período já os pombos da escola criavam borrachos para oferta aos interessados. Deste esforço resultaram 6 potenciais interessados em prosseguir para a fase seguinte: treinar os seus próprios pombos e iniciar a sua aprendizagem prática em casa.

Estamos agora no início do 1º período do ano lectivo de 2012/2013. Realizámos uma reunião para definir o calendário de competição da escola bem como as regras do mesmo tendo em atenção a boa ética desportiva. Após debate conclui-se que o campeonato do columbófilo seria disputado com 1 pombo designado e que os restantes pombos enviados contariam para apenas para o campeonato do pombo. Três miúdos tiveram autorização dos pais para entrar nesta fase. Esta semana (4ª de Outubro) os miúdos começaram a trazer os seus borrachos para a escola para treinar, e tem sido bastante divertido. Hoje, dia 23 de Outubro, a solta e a chegada foram relatadas ao vivo pois no pombal em causa estava uma mãe sofredora atenta à chegada do primeiro treino dos pombos do filho.

No fim-de-semana passado participámos na Exposição de aves local. No dia de abertura às escolas os pombos fizeram sucesso pois eram os únicos a poderem ser manejados pelos visitantes. Foi bastante positivo. Em especial, os do 1º Ciclo adoraram e certamente que vão invadir o pombal quando chegarem à E.B. 2,3. Também um Professor do 1º Ciclo me abordou perguntando-me "porque não fez um pombal também no 1º Ciclo?". Certamente que esta conversa irá continuar, mas eu ainda não sei se será um boa ideia ter os pombos no 1º Ciclo. Perderia o factor novidade, e nestas idades os pombos não podem ficar entregues aos miúdos sem correrem "riscos de vida". Talvez seja melhor realizar algumas soltas de pombos durante o ano para eles saberem que existem e assim manter a chama acesa.

Entretanto começaram a visitar o pombal os novos alunos do 5º ano e o ciclo repete-se, mas este ano com um nº de participantes muito menor pois a curiosidade inicial esbateu-se na maioria da primeira fornada. É certo que um maior nº de pombos no pombal manteria mais alunos interessados, mas não é menos certo que o meu tempo livre não permite acompanhar muitos jovens. No final as coisas tendem para o equilíbrio entre ambas as partes. De outra forma seria insustentável. De qualquer forma ainda hoje, dia 24 de Outubro, mais dois alunos do 5º ano se apresentaram com o plano de construção dos seus pombais e um dos encarregados de educação quer mesmo falar comigo sobre este tema. O apoio dos pais é fundamental.

Este ano curiosamente temos 1 caso da era moderna de Marinhais: um dos novos miúdos mora num apartamento. Soluções?.

A escola tem ainda outro pombal em parceria com uma Universidade no qual se realizam estudos sobre a orientação do pombo. Já começamos a introduzir os miúdos na investigação e após o primeiro ano penso que estamos agora em melhores condições de abrir ainda mais este mundo à curiosidade da comunidade escolar. É uma oportunidade única para os miúdos poderem colocar directamente as suas questões a profissionais.

Este relato tenta de alguma forma ser uma fonte de informação para quem pensa iniciar um projecto deste tipo. Espero que surgem mais iniciativas com esta filosofia. Acreditem que vale a pena o esforço.

No final aqui ficam algumas imagens de pombais bem como a sua evolução ao longo deste ano que e certamente não irá parar:

Filipe João Marcelo
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